Nunca gostei particularmente das festas de ano novo, uma euforia obrigatória por calendário, urros programados só porque o ponteiro dos minutos faz o que sempre fez, desde que há ponteiros de minutos, e etc e tal, mas fora a encenação exterior prevalecem os amigos, os brindes com a autenticidade de uma alegria que não dura apenas um minuto, ou essa volta mecânica do ponteiro. Ano novo, dizem, vida nova! Mas a vida segue o seu curso, mais minuto menos minuto, cada instante passado torna-se presente - e nada é inteiramente passado ou novo.
Por mim, fico por aqui. Não sei quando voltarei. Despeço-me com amizade deste blogue, se é que se pode ter amizade a coisas.
Os diálogos, esses, continuam.
FELIZ ANO NOVO A TODOS!
tchim tchim!


Não pegues na colher com a mão esquerda.
Não ponhas os cotovelos na mesa.
Dobra bem o guardanapo.
Isso, para começar.
Extraia a raíz quadrada de três mil trezentos e treze.
Onde fica o Tanganica? Em que ano nasceu Cervantes?
Dou-lhe um zero em comportamento se falar com o seu colega.
Isso, para continuar.
Parece-lhe decente que um engenheiro faça verso?
A cultura é um enfeite e o negócio é o negócio.
Se continuas com essa moça fechamos-te a porta.
Isso, para viver.
Não sejas tão louco. Sê educado. Sê correcto.
Não bebas. Não fumes. Não tussas. Não respires.
Aí, sim, não respirar! Dar o não a todos os nãos.
E descansar: morrer.
[Gabriel Celaya, 1911-1991]

(Em casa dos pais em San Sebastián)
Foi difícil fazer os militares aceitarem as regras da vida democrática...
Regressados aos quartéis... dizem os militares, em actos de fé pública, que uma democracia não pode viver com militares contrariados ou descontentes, que são uma classe importante para o País.
Como os professores, senhores militares! Como os professores, os funcionários públicos, os enfermeiros, os médicos, os agricultores, os juízes, etc etc.
Mas nisto de reivindicações justas parece que a justiça se mede pelo tamanho do camião ou a ameaça das armas. (Ou talvez se compense o disparate mais idiota).
A Notícia (TSF, 30 de Outubro):
«O general Loureiro dos Santos chamou à atenção para o desespero que se está a apoderar de alguns militares e alertou para a possibilidade de algumas atitudes que podem pôr em causa a democracia portuguesa. Sargentos e oficiais das Forças Armadas confirmam estes alertas».
MInha mãe faleceu durante a tarde de ontem. Aprendo a ser orfão de quem me recitava poesia e me abraçava julgando-me também poeta.
A vida esgota-se num aceno, longa não é a vida, mas a recordação.

JC (1980?)
Volto em breve ao vosso convívio e ao desafio da escrita. E da fotografia.
Obrigado a quem me tem visitado.

É urgente um barco, dizia o poeta - mas o poeta sonhava com uma casa com vistas para o mar, uma casa-museu que tivesse o seu nome e celebrasse eternamente o seu nome glorioso e camponês. A isso se dedicou. É urgente um barco (dizia). Ou dois. E vinho também. O vinho põe na cabeça dos marinheiros que nunca o foram a sensação da viagem. Quanto à viagem, não vão longe. Mas a sensação compensa-os, pois também o vinho fez um dia deus vangloriar-se da sua perfeição - o resultado é o que está à vista, pois não se conteve em reproduzir, até aos tempos do fim, a sua imagem e semelhança.

Ohhhhhhhhhh! Navegar é preciso! (outro poeta, e sábio, o disse).

Militar russo abandona a cidade de Senaki, na Geórgia.
Fotografia: News Bridgepix/Reuterseste
Neste tempo de férias, para muitos portugueses, sem oposição que se veja a um governo cujo único argumento continua a ser a força de uma maioria absoluta, alguns acontecimentos vieram sacodir a inércia habitual da época.
A actuação da polícia na sequência de um assalto frustrado a uma instituição bancária, a invasão da Rússia de território georgiano e a abertura, não menos espectacular, dos Jogos Olímpicos na China.
Acontecimentos que nada têm em comum, a não ser representarem a compressão do mundo ao tempo do imediato e da realidade à saturação dos media.
A abertura dos Jogos Olímpicos teve a duração programada - a guerra aberta não se sabe que tempo durará. Mas a ansiedade e a nostalgia da realidade-próxima privilegiou um canal de televisão a transmitir, em directo e durante horas, o caso dos sequestradores e assaltantes de uma instituição bancária. Tudo acabou em bem, dizem, com mortos e feridos - e os reféns salvos. Não se julgue que nutro qualquer compaixão por assaltantes, que não têm respeito pela vida humana, nem por polícias ou homens de farda treinados mais para matar que para negociar. Não me cansa esse triste espectáculo da condição humana/urbana (mais tarde ou mais cedo seremos envenenados pelas doses anfetamínicas que as notícias nos injectam, essa sensação fulminante de que o mundo gira ao pé da nossa porta), mas o surpreendente foi o prolongamento absurdo, até à náusea, de um acontecimento-epílogo que se eclipsou no zénite do seu desfecho.
Em vão os produtores da notícia em directo procuraram a novidade de uma testemunha, interrogaram uma pobre empregada de limpeza que se dirigia para o local, quando na altura dos acontecimentos foi barrada pelas autoridades. Que não, dizia ela, não tinha visto nada, e a jornalista insistia. Depois descobriram uma oficina perto. Que viram, que não viram, que sentiram aqueles eventuais figurantes de um cenário montado para o crime? Que não, que só viram um carro chegar, homens encapuzados. Convenhamos que já é alguma coisa. E a velhota na varanda? Apareceu de relance. Nenhum jornalista a entrevistou (um lapso imperdoável). As notícias hoje vomitaram cadáveres e tiros, a seguir veio o futebol e as estorietas das transferências e dos jogadores, se ficam se não ficam, em Inglaterra, em Espanha, em Portugal... tudo assuntos importantes que fazem o delírio das nossas gentes como a Senhora de Fátima, e vai ser um orgasmo colectivo... se o deus-cristiano-ronaldo fica bom do pé, que País este! De podófilos!
Boas férias!
Eram tres.
(Vino el dia con sus hachas.)
Eran dos.
(Alas rastreras de plata.)
Era uno.
Era ninguno.
(Se quedó desnuda el agua.)

[poema de Federico García Lorca]
(Tributo a um grande filme da série menor)
O Ministro Português dos Negócios Estrangeiros reconheceu, recentemente, que a Europa e, duma forma geral, todo o mundo vive a maior crise desde o fim da II Guerra Mundial, crise que se adivinha social, económica e, por extensão, ambiental.
Crise.
Não bastam os discursos optimistas e propagandeiros do senhor engenheiro José.
Não bastam.
O que está em causa é a classe média e um modelo de bem-estar e confiança alicerçado no esforço pelo trabalho e o investimento: Portugal dá o triste exemplo de extremar as desigualdades de rendimento.
A crise é a da classe média que este governo tem ajudado a aniquilar.
A maior crise desde a II Guerra Mundial?
Percebe-se assim a azáfama do senhor engenheiro José em fazer grandes obras, aeroportos, comboios de altíssima velocidade a parar aqui e ali, novas pontes sobre o Tejo para mais automóveis... é que estamos num País devastado, é preciso reconstruir as cidades, os aeroportos, as vias de comunicação...
A maior crise desde a II Guerra Mundial.
Crise para quem?
É nos momentos de crise que os tiques da arrogância e do poder acabam por colher os seus frutos e as maiorias absolutas.
O ovo da serpente.
E viva o futebol e os scolaris que erguem bem alto a patriótica bandeirinha!
Desde a II Guerra Mundial.
Fraternidade? Sim, com desconhecidos. Com a força dos amigos.
Aquele homem que ali passa, está ele ainda disponível para a fraternidade? (Perguntava Bretch).
Pela amizade é que vamos,
dizia outro poeta
(se disse que era pelo sonho disse o mesmo).
Let me fall
Let me climb
There’s a moment when fear
And dreams must collide
Someone I am
Is waiting for courage
The one I want
The one I will become
Will catch me
So let me fall
If I must fall
I won’t heed your warnings
I won’t hear them
Let me fall
If I fall
Though the phoenix may
Or may not rise
I will dance so freely
Holding on to no one
You can hold me only
If you too will fall
Away from all these
Useless fears and chains
Someone I am
Is waiting for my courage
The one I want
The one I will become
Will catch me
So let me fall
If I must fall
I won’t heed your warnings
I won’t hear
Let me fall
If I fall
There’s no reason
To miss this one chance
This perfect moment
Just let me fall

«Apesar das vantagens comparativas, viver nas cidades envolve riscos novos […]. Vive-se na dependência do funcionamento eficaz dos serviços de abastecimento de água, energia (electricidade, gás e combustíveis líquidos para os veículos) e bens alimentares e de remoção das águas residuais e lixos.
A interrupção prolongada do abastecimento destes serviços tem consequências devastadoras».
Filipe DUARTE SANTOS, in Que Futuro? Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento e Ambiente, 2007: p.370
O que ainda o texto não evidencia é que as populações urbanas podem torna-se reféns de grupos ou de indivíduos criminosos que recebem à pedrada os meios de abastecimento alimentar e energético, uma vez que as reivindicações legítimas (não mais legítimas do que outras) de um sector profissional ou dos seus interesses privados não se podem confundir com estes senhores e piquetes ostensivos que ameaçam e usam como método de persuação a intimidação.
Portugal não é um Estado de Direito mas um reino gerido por bandoleiros que, na calada da noite, furam pneus e incendeiam veículos que abastecem populações civis reféns de que tipo de interesses e métodos de acção?
«Eles» querem lá saber da solidariedade ou do bem-estar das populações! Solidariedade é uma palavra que não se coaduna com acções de terrorismo urbano.
A fragmentação das solidariedades e dos grupos sociais torna também improvável uma guerra civil, pois os recrutamentos de larga escala pelas condições comuns e identidades infra-nacionais são coisa do passado. Não estamos à beira de uma guerra civil, mas de um pânico civil. Face à passividade das autoridades e à demissão cívica do cumprimento das políticas públicas.
Prospero's Speech
Now my charms are all o'erthrown,
Finalmente há oposição que ameaça tornar-se credível ao circo da maioria absoluta em Portugal. A tribo que assaltou o poder inventará outras mentiras e vai mascarar-se de discursos sociais, a mesma tribo que mentiu sobre o Referendo europeu, a mesma tribo que mentiu sobre o emprego e os impostos, a mesma tribo que desenha casas duvidosas pelo engenheiro da Câmara da Covilhã, a mesta tribo que encerra postos de urgência e maternidades, a mesma tribo auto-satisfeita com os despojos da classe média, essa tribo que só faz voz firme contra os fracos, essa tropa que se cala com os aumentos dos combustíveis, a mesma tribo que será varrida pela consciência cívica, que despreza professores e funcionários públicos, que se tornou maioritariamente arrogante e pobre de ideias, nula de ideiais, essa tribo começa a soçobrar de podre, e tresanda tresanda que se farta neste País, País de ais, de pais consolados frente à televisão, País de ais e de olés, País de dirigentes desportivos agitando o bigode, promovendo urbanizações, recrutando os vivas e os améns das touradas, isto é tudo fado, isto é tudo futebol e scolaris e ronaldinhos levados em ombros, que os deuses passaram por aqui, por ali em Vila Real, por ali foram e não viram as bandeirinhas, que o povo começa a fartar-se, a fartar-se de tanta pedagogia do opressor, de ser carne para canhão de gasolineira, de ser estrume para as rosas rosas-vozes-financeiras, que o povo há-de vo(l)tar, há-de acordar enquanto o primeiro-ministro faz exercício e corta lenha, até pode correr em círculos e cantar, que o povo está farto, o País está cansado de tanta hipocrisia, de tanta desigualdade, antes a social-democracia, antes alguma preocupação social genuína e séria, que isto, que aquilo, que corta-fitas, que fitas, que fiteiros, o povo começa a fartar-se de tanto cansaço, de tanta competência no poder, tanta inflacção prevista, tantas finanças para pontes e aviões, tudo em grande, que só o povo é pequeno - mas acautelem-se se pensam que o povo é estúpido!



ANSEL ADAMS, porque a natureza é bela mesmo quando ferida.
Pura música.
Invenção. Mistério, isso a que chamamos de...
Para além das palavras.
Em clave de Sol.

«Pode-se observar anualmente este dantesco espectáculo nas ilhas Feroe, Região Autónoma da Dinamarca.
É incrível que ninguém diga nada sobre um atentado ecológico monumental como este.
Trata-se de uma festa anual, onde os rapazes participam activamente para manifestar a sua passagem à idade adulta.
E estão na União Europeia!...
Se esta é uma das nações que dizem mais avançadas do mundo como é possível?!...
Uma vergonha !!!!!!»
[arquitecta Celeste Ramos, comunicação pessoal]
O Homem é apenas um animal que produz cultura, mas que é incapaz de construir uma ética. A violência não-natural, sem relação com a competição pela vida, o território ou os recursos é uma violência cultural onde o direito à diferença e os regionalismos servem apenas para, «culturalmente», justificar a tirania dos costumes. Contra as mulheres em dadas culturas, contra minorias étnicas (minorias na população ou nos cargos de poder) ou contra a diferença, a cultura que apela ao direito à diferença horroriza-se com a diferença do outro: e classifica o outro que maltrata em ser inferior, independentemente de ser humano ou não. A desvalorização do outro faz parte da cultura da violência, a cultura dominante.
Porque os agro-combustíveis fazem recuar as terras do pão, porque a crise do imobiliário transfere a economia especulativa para o petróleo e os bens alimentares básicos, porque a Europa subsidia os camponeses ricos da França, porque em situações de escassez cada País pobre reivindica direitos de soberania para a sua agricultura, porque o preço do trigo fez inflaccionar também o preço do arroz, porque as cidades evoluíram destruindo o equilíbrio entre as comunidades urbanas e o hinterland rural, porque a globalização se fez para o turismo e o tráfico e não para a mobilidade dos trabalhadores, porque a ciência acena soluções para a fome desde a «revolução verde» há mais de 60 anos e cada solução provoca mais danos ambientais, porque as Nações Unidas deixaram de apostar na luta contra a fome e mudaram os seus esforços internacionais para forçar eleições e escrutínios como se o povo comesse boletins de voto, porque os tiranos ditam os resultados eleitorais, porque os pobres revoltam-se contra os imigrantes mais pobres ainda: quais as razões da violência colectiva? Razões naturais de pressão sobre recursos escassos? Razões sociais de nacionalidades ou etnias rivais? Onde acaba a natureza e começa a odiosa sociedade humana? Que razões mais buscar e onde para tanta violência? Que gente se erguerá desta gente, que mesquinhez sobreviverá a este século?

(AP/BBC)
Um contraponto aqui, talvez uma solução, sabendo-se que não haver solução significa não haver mais humanidade.
AGRICULTURA, OUTRA REVOLUÇÃO VERDE, PORÉM MELHOR
(texto de Stephen Leahy)
Acreditar, ainda e sempre?
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